Frutas Aurora

Aurora de Brito trocou Trás-os-Montes por Lisboa aos 12 anos. Veio à boleia de uma tia, irmã da sua mãe, que lhe deu casa e um emprego. Era dela a banca no Mercado de Ourique onde Aurora vende fruta há 68 anos.

Aos 80, ainda não se imagina a não ir trabalhar para o mercado todos os dias. Recorda uma altura em que o marido, médico, a proibiu de ir trabalhar porque “parecia mal a mulher do médico estar a vender fruta no mercado.” Aurora ia enlouquecendo. Passou oito meses em casa e “dava tareia” a toda a gente, aos filhos e até aos gatos. O marido lá mudou de ideias, disse que preferia “vê-la no mercado do que numa casa de saúde”, e Aurora nunca mais esteve tanto tempo afastada da sua banca. Diz que “adora estar aqui, a falar com as senhoras e trocar receitas.”

Ao longo dos anos, o mercado passou por várias transformações, mas, para Aurora, a tradição mantém-se. Diz que o bairro é como uma província no meio da cidade, onde “toda a gente se conhece.” E mesmo que alguns dos seus habitantes se tenham visto obrigados a sair devido ao aumento dos preços das casas, ao fim de semana lá regressam para irem fazer compras ao mercado. Às vezes, há clientes que querem comprar abacaxi, mas não sabem como o arranjar. Aurora diz-lhes para irem fazer o resto das suas compras, e quando voltam, o abacaxi está pronto. É o tipo de serviço que não se encontra em mais lado nenhum.

A qualidade dos produtos também não é a mesma que nos supermercados, onde, numa visita recente, Aurora não se lembra de ter visto uma única fruta de origem portuguesa. Já na sua banca, a fruta é, sempre que possível, comprada a produtores portugueses, excluindo aquelas frutas mais exóticas como a papaia ou o mangostão, que tem de comprar a produtores estrangeiros. Mas são as frutas portuguesas que têm mais saída, principalmente as laranjas, que os clientes “levam às sacadas.”

A história da banca de frutas de Aurora faz parte da história do Mercado de Campo de Ourique e do bairro. Foi tema até de uma crónica, cujo título relembra as palavras do marido há tanto tempo atrás: “Antes no mercado que numa casa de saúde.”

Aurora faz parte da história do mercado, mas é também testemunha de quase tudo o que por ali se passa. O episódio mais marcante que se lembra de ter presenciado aconteceu na altura do 25 de Abril, com uma colega de mercado “comunista ferrenha.” Um dos seus camaradas andava à porta do mercado a vender jornais, quando foi abordado por um polícia que lhe disse que ali não era sítio para fazer propaganda. A colega de Aurora não foi de modos, aproximou-se e deu com um jornal na cara do polícia. Aurora descreve o resto da história como “o fim do mundo”: veio a polícia de choque, começou a bater nas pessoas com bastões, e ouviam-se gritos por todo o lado. Aurora só teve tempo de pegar na filha e esconder-se debaixo da banca, onde desmaiou. Já a sua colega deixou de trabalhar no mercado durante uns tempos, depois voltou com o cabelo pintado para não a reconhecerem, mas acabou por, tal como Aurora, ficar por ali até hoje.

A história da banca de frutas de Aurora faz parte da história do Mercado de Campo de Ourique e do bairro. Foi tema até de uma crónica, cujo título relembra as palavras do marido há tanto tempo atrás: “Antes no mercado que numa casa de saúde.” É no mercado onde, certamente, continuaremos a encontrar Aurora Rodrigues. Aos 80 anos, com o seu marido, os quatro filhos, os seis netos — e a sua banca de frutas, claro — diz que “está tudo 5 estrelas.”

Texto: Raquel Magalhães
Fotografia: Alice Bracchi

Produtos

Figos, 500g

€3,25

Morangos, 500g

€1,75

Nectarinas do Algarve, 1kg

€3,50

Laranjas do Algarve, 1kg

€1,80

Cerejas do Fundão, 500g

€5,00

Caixa de Mirtilos

€2,75

Bananas, 1kg

€1,60

Uvas Red Globe, 1kg

€3,80

Pera rocha de Alcobaça, 1kg

€2,50

Maçã Fuji de Alcobaça, 1kg

€2,50

Kiwi de Portugal, 1kg

€3,50

Pêssegos do Algarve, 1kg

€3,50
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