Julie

de Julie Beliao em April 29, 2020

 Julie

 

Lembro-me perfeitamente deste momento. Eram cerca de 11 horas, numa manhã fria de quinta-feira, na pequena vila em França onde passava as férias com os meus avós, Saint-Valéry-Sur-Somme.

Buzinas estrondosas aproximavam-se rua abaixo, anunciando a sua presença. Não fazia ideia do que se passava, mas toda a gente à minha volta agia como se nada fosse. Em jeito de rotina, os meus avós agarraram vários recipientes e foram porta fora. Rapidamente se formava uma fila, e aí explicaram-me que era o camião dos laticínios, que vinha rotineiramente à vila vender leite, queijo e natas. Não me lembro do nome da senhora que os vendia, mas lembro-me do chapéu branco imaculado que usava para manter o cabelo no sítio, e das suas bochechas rosadas do frio.

Ela dava-nos as boas vindas um a um, com um sorriso de orelha a orelha, geralmente seguido por “o que vai ser hoje?”. O ritual era, no entanto, muitas vezes desnecessário — a senhora sabia perfeitamente o que ia ser hoje, e lá ia ela, à parte traseira do camião, buscar a encomenda que preparou cuidadosamente para cada um antes da viagem.

Tornou-se um momento especial. A sensação de alguém já saber o nosso nome, o que nós queríamos, o que gostaríamos de experimentar. E voltava a ser especial quando provávamos as natas acabadas de bater, impossíveis de encontrar em qualquer supermercado na cidade. Depois do camião dos laticínios vinha o dos vegetais e o das frutas, onde comprávamos morangos deliciosos que eram colhidos na vila vizinha.

Já em casa, insistia em preparar eu a sobremesa, deitando as natas frescas em cima dos morangos (cobertos generosamente de açúcar, ou cassonade, um açúcar mascavado natural do norte da França), devorando rapidamente tudo o que tinha no prato.


A minha irmã Marianne e eu, a posar orgulhosamente com as natas frescas, os morangos, e o cassonade.

Uma vez que o meu pai era Português, muitos dos meus verões também foram, à semelhança de tantas outras famílias portuguesas, passados no Algarve, em Vila Real de Santo António. Assim, à semelhança de tantas outras famílias portuguesas, passei tardes sem fim a torrar na praia, a construir vastos castelos de areia, a correr para o mar com os meus primos e amigos. E, talvez o mais importante na altura, a aguardar pelo mítico chamamento: “Booooliiiiiinhas de Berlim — é com crééééme e sem crééééme.”

Mal a frase tinha começado e já nós corríamos desalmadamente até aos nossos pais, para receber as moedas e sinalizar ao Carlos para se aproximar. O Carlos estava lá todos os verões a vender os pastéis da sua pastelaria, e muitas vezes parava para falar connosco. Durante o resto do ano, contou-nos uma vez, era professor de línguas, mas passava todos os verões a percorrer a praia para conseguir amealhar algum dinheiro extra. Os nossos pais lá ficavam na conversa, mas nós rapidamente nos sentávamos com as bolas de Berlim, sem prestar grande atenção aos dedos cheios de areia que se esforçavam para não deixar nem um bocadinho de creme fugir.

26 anos depois, já a viver em Lisboa, confesso que sinto uma certa saudade dessa sensação, seja nas praias do Algarve ou lá em casa em Saint-Valéry-Sur-Somme. Saudades da atenção, do sabor único dos produtos, de me sentir parte de uma comunidade bem maior do que a minha família. De um bairro com os seus costumes, comerciantes, e histórias (ou coscuvilhices!). Em Saint-Valéry-Sur-Somme, era a neta do senhor e da senhora Sortais, e raramente saía de uma loja ou mercearia sem um doce, como um chupa-chupa, ou um Neufchâtel (um pequeno queijo na forma de um coração). Aqui, em Lisboa, sou apenas mais uma pessoa no supermercado.


Neufchâtel

Aquilo que torna as relações entre os donos e os clientes dos pequenos negócios tão especiais é que estes estão mesmo investidos no seu trabalho, nos seus vizinhos, nas suas comunidades. Dão uma certa sensação de pertença a quem quer que lá entre. Mas não é sempre a opção mais prática visitar estes comerciantes, comparando com, por exemplo, deslocar-me rapidamente a uma cadeia de supermercados a menos de 5 minutos de casa. E mesmo quando estes comerciantes independentes criam uma presença online para facilitar o processo, raras são as vezes que conseguem combater com os serviços, parcerias e economias de escala oferecidos por estes “gigantes”, acabando muitas vezes por lutar pelo segundo, terceiro ou até quarto lugar.

E é por isto que nós achamos que os comerciantes independentes devem ter o seu fórum onde, juntos, conseguem oferecer o mesmo tipo de serviços e conveniência que estas grandes cadeias comerciais oferecem.

Na verdade, pensando um pouco naquelas tardes Algarvias, o Carlos e os seus colegas eram, de certa forma, precursores de sistemas como o Uber Eats ou Glovo. Trabalhavam com lojas locais, às quais iam de manhã receber os pastéis para depois vendê-los na praia. Estas grandes plataformas tecnológicas, a fornecer serviços de entrega on-demand enquanto se publicitam a eles próprios, não inventaram nada de novo. Apenas aproveitaram a tecnologia móvel onde tudo acontece à distância de um clique e um modelo de negócios baseado na gig economy para satisfazer a nossa necessidade crescente de gratificação instantânea.

Mas não é isto que nós queremos fazer. Também não temos intenção de copiar o modelo das grandes cadeias comerciais. Eu, e todos nós no comerciantes.pt, acreditamos que, para quebrar o status quo, é necessário não só acompanhar e dar apoio, mas também aliarmo-nos às lojas locais numa plataforma online que serve como ponte entre os clientes e os comerciantes. Aqui, vamos dar destaque aos negócios mais pequenos, que não têm tantos recursos à sua disposição para competir com as grandes superfícies, para promover um tipo de consumo com maior impacto social, onde os clientes podem apoiar os seus comerciantes e negócios locais favoritos.

No comerciantes.pt, queremos replicar a sensação de se ir à praça principal da vila ou da cidade para visitar o talho, a queijaria, a mercearia do costume. Claro que não conseguimos replicar toda a experiência — não conseguimos fazer soar as buzinas dos camiões ou as conversas do Carlos. Mas conseguimos contar as histórias dos seus comerciantes favoritos e ajudá-los a levar-lhe os seus produtos. E esperamos, com isto, trazer um bocadinho da comunidade até sua casa.

 

Julie Belião

Julie Belião
Fundadora & Voluntária no comerciantes.pt

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