Quando se fala em Campo de Ourique, fala-se, inevitavelmente, da vida de Bairro. É quase uma cidade dentro de uma cidade, dizem os moradores: “Acho que tem um bocadinho de tudo, o sentimento de bairrismo, a zona pedonal, as pessoas são naturalmente mais próximas, gostam de conhecer, de falar, de cumprimentar,” conta Marlene, que abriu em 2015 a Casa a Granel, juntamente com o seu marido. “Uma das coisas que nos encantou no bairro foi, logo no segundo ou ao terceiro fim-de-semana que aqui passamos, houve logo algumas pessoas que, como nos tinham visto nos fins de semana anteriores, passaram-nos a cumprimentar.”
Campo de Ourique é, essencialmente, um bairro residencial, fruto de um dos primeiros planos urbanísticos executados pela Câmara Municipal de Lisboa, em Novembro de 1878. Este projeto, liderado pelo engenheiro Frederico Ressano Garcia, transformou uma série de campos agrícolas no que viria a ser um dos bairros mais emblemáticos de Lisboa.
Apesar das suas ruas metodicamente organizadas em quarteirões, a arquitectura que as caracteriza parece tudo menos planeada: junto a edifícios clássicos do final do séc XIX, com as suas fachadas trabalhadas ao pormenor, vemos os mais exuberantes exemplos da Arte Nova (como é, por exemplo, o caso da Pastelaria “A Tentadora”) e as construções mais modernas e minimalistas.
Curiosamente, a salgalhada arquitectónica acaba por fazer sentido. Talvez porque, em Campo de Ourique, o novo e o antigo andam sempre de mãos dadas. Basta passear pelas suas ruas e quarteirões, desde a pitoresca Rua Ferreira Borges ao animado jardim da Parada, que vemos negócios mais recentes, como a Casa a Granel da Marlene ou a queijaria Maître Renard de Ulysse e Léonie, a coexistirem harmoniosamente com comerciantes mais experientes, como é o caso da frutaria da Aurora e o talho da Zezinha.
Zezinha e Aurora são comerciantes do Mercado de Campo de Ourique, inaugurado em Abril de 1934, há quase 70 anos. Quando lhe perguntam acerca de Campo de Ourique, Zezinha responde quase que com um suspiro de nostalgia: “Ai, a minha rica praça.” Hoje em dia, o mercado dá espaço a uma panóplia variadíssima de comerciantes, desde as bancas tradicionais de legumes e frutas, até às mais recentes bancas de cerveja artesanal, sushi e poke bowls. Há de tudo um pouco. Aurora foi assistindo às várias transformações que o mercado sofreu, mas, segundo nos conta, a tradição mantém-se. Diz que o bairro é como uma província no meio da cidade, onde “toda a gente se conhece.”
E é esta qualidade de bairro que torna Campo de Ourique tão encantador, tanto para quem lá vive, como para quem visita. Dora, uma das três mulheres “da vida airada” por detrás da Parceria de Conservas, confessa que Campo de Ourique sempre foi um bairro muito especial: “Não é preciso sair daqui para ter acesso a tudo, não é preciso ir ao hipermercado nem ao centro comercial, porque a nível do comércio local há tudo o que é preciso.” Diz que cada vez mais é preciso retomar esses hábitos do comércio tradicional, onde se criam relações próximas com os vizinhos e os produtos têm mais qualidade.
E Dora acaba por ter razão: ao longo dos anos, Campo de Ourique manteve sempre a tradição do comércio local bem viva. Quer se queira tomar o pequeno-almoço numa das dezenas de pastelarias que populam as ruas do bairro, cortar o cabelo e aparar a barba ou comprar uns biscoitos para o cão, Campo de Ourique parece ter uma resposta para tudo.
E, cereja no topo do bolo, tudo para se fazer a pé. Aliás, correm rumores do desprazer que é arranjar estacionamento nestas ruas. Como põe eloquentemente um dos moradores, “está-se feito ao bife.” De qualquer das formas, também não será o fim do mundo. Há certamente males que uma cervejinha gelada no Jardim da Parada ou o melhor bolo de chocolate do Mundo não conseguem resolver, mas este não é um deles.
Texto: Rafaela Cortez
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